sábado, 21 de julho de 2012

Seedorf: Luta por igualdade étnica inspirada em Mandela

Bruno Saldanha e Vinícius Perazzini
Publicada em 21/07/2012 às 07:03
Rio de Janeiro (RJ)

Engajado em prol de causas sociais, Seedorf não foge à luta quando o assunto é a discriminação racial existente ao redor do planeta. O meia prefere não falar muito, mas é um dos principais articuladores do mundo na busca pela igualdade étnica. O LANCENET! desvenda aqui uma saga que começou há 100 anos, na pobre Suriname, e hoje engloba até o mais importante líder da África, o ícone da liberdade na África do Sul, Nelson Mandela.

No século passado, no atual Suriname, que até 1975 foi uma colônia holandesa, o bisavô do jogador trabalhou como escravo e foi libertado pelo dono alemão, de quem recebeu o sobrenome Seedorf. O atual camisa 10 do Botafogo nasceu no país, em 1976, mas foi com a família para a Holanda na adolescência. Lá cresceu, vingou no futebol, mas não esqueceu suas raízes.

Mais velho e mesmo já com cidadania holandesa, Seedorf sempre fez questão de agregar jogadores latinos e negros com brancos em todos clubes pelos quais atuou. E já famoso, se aproximou fortemente do grande ídolo dele, Nelson Mandela, atualmente com 94 anos.

A ideologia de Mandela por direitos iguais foi a inspiração maior de Clarence Seedorf para a abertura da "Fundação Champions for Children", instituição que ajuda crianças carentes através do esporte desde dezembro de 2005.

Em 2009, já com seu projeto social consolidado, Seedorf recebeu das mãos do próprio Nelson Mandela o título de "Legacy Champion", nome dado aos filantropos que ajudam a manter em alta o legado do líder sul-africano. Além de se juntar a um grupo seleto, Seedorf ganhou também incentivos da “Fundação Nelson Mandela” para a "Champions for Children".

Nesta sexta-feira, quando perguntado pelo LNET! sobre a relevância de Mandela, Seedorf se mostrou emocionado em entrevista no Engenhão:

– Ele é muito importante. Merece uma abordagem muito ampla.

Seleção ‘partida’ pela cor

Seedorf já viveu de perto as dificuldades por conta de diferenças étnicas. Na seleção da Holanda, repleta de mistura entre brancos e negros, oriundos de família do Suriname ou naturais do país, houve ruídos. Em 1996, conta-se nos bastidores que o fracasso da seleção na Eurocopa foi causado em grande parte pelo diálogo difícil no grupo.

Os jogadores que estavam no time à época não confirmam os problemas, mas o jornalista holandês Ernest Land Heer, repórter da revista Voetbal International (HOL), confirma que existiu um choque.

– Foi um período muito feio no futebol holandês, especialmente por conta de uma foto tirada na Eurocopa de 1996, com negros e brancos em mesas diferentes. Ali tudo se tornou ainda pior do que realmente era. Acho que o único branco sentado à mesa dos negros era o ex-goleiro Van Der Sar – destacou.

Com a palavra

Ernest Land Heer

Repórter da revista "Voetbal International" (HOL)

Pelo que sei, os negros da seleção holandesa sentiam que o treinador Guus Hiddink, que é branco, não escutava aquilo que era dito por eles. Isso foi ruim.

Aquela foto de 1996 é horrível. Mas há uma outra possível justificativa para aquilo, que envolve a questão da idade de cada jogador. Danny Blind, Dennis Bergkamp e os irmãos De Boer, por exemplo eram um pouco mais velhos. Enquanto isso, o grupo formado por negros era jovem. Era compreensível que se sentassem separados, mas a imagem pareceu muito feia.

Em 1998, com o mestiço Frank Rijkaard (mãe branca e pai negro) como técnico, a separação acabou.