No último domingo, 30 anos se completaram desde que Mané Garrincha, o “Anjo das Pernas Tortas”, faleceu. Morto no dia 20 de janeiro de 1983, o bicampeão mundial com a Seleção, em 1958 e 62, sucumbiu vítima de uma cirrose hepática e deixou um misto de admiração e pena. O Brasil perdia um de seus maiores craques, e uma pergunta, até hoje, continua a despertar curiosidade entre seus admiradores: teria sido ele capaz de reescrever a própria história, marcada não só pelo brilho, mas também pelo alcoolismo?
Jornalistas e profissionais, que conviveram com Garrincha, afirmam que o jogador não obteve um reconhecimento ao redor do mundo, como aquele obtido por Pelé, por causa da própria personalidade humilde. Na visão do radialista José Carlos Araújo, o ídolo botafoguense nunca se preocupou em se tornar um herói nacional ou exemplo para a sociedade.
- O Garrincha não teve e não tem um reconhecimento mundial. É o reconhecimento só dos saudosistas que conviveram com ele. A memória do futebol não homenageou o Mané como deveria. A gente tinha pena dele, porque ele estava decadente, sem dinheiro, sem reconhecimento público. Me lembro no final da vida, ele internado numa casa de saúde, fui visitá-lo e ele com voz fraca, muito magro, tremendo. O alcoolismo liquidou com ele - conta.
Uma carreira promissora
Era incomum a presença de empresários e assessores na época de Garrincha, que nasceu em 1933 e tornou-se destaque logo aos 14 anos, atuando pelo Esporte Clube Pau Grande, no Rio de Janeiro, antes de se transferir ao Botafogo. Parece difícil imaginar o craque cercado por uma equipe particular ou administrando os lucros de anúncios, como fazem Messi, Neymar e Cristiano Ronaldo nos dias atuais.
Garrincha não era assessorado como Pelé
(Foto: Getty Images)
- O Garrincha era simplório, as declarações eram como ele era, não se auto-promovia. Talvez faltasse aquele tipo de assessor de imprensa. Porque o Pelé teve o assessor de imprensa dele, que foi ele mesmo, além do futebol que tinha. Ele sabia que o dinheiro valia, mas não sabia o valor que ele tinha com relação ao dinheiro – comenta o jornalista Argeu Affonso.
Claudio Carsughi afirma que Garrincha, caso tivesse ido para a Europa, após o título mundial de 62, e explorado seu futebol comercialmente, teria tido um futuro melhor. Segundo o jornalista, o jogador acabou pouco explorado no Brasil, mas tinha espaço em times grandes europeus, como o Real Madrid, e poderia ter se tornado uma lenda como Di Stefano, ídolo histórico dos Merengues.
- Hoje, o Garincha, com estrutura pessoal e de família do Kaká, seria um milionário. Foi um jogador atípico de quem você podia esperar tudo e nada ao mesmo tempo. Um jogador de habilidade nata, de quem era dificil tirar a bola dos pés. Pode assistir a um filme, só com uma tomada das pernas para baixo, e se diz que é o Garrincha – afima.
A imagem deixada por Garrincha
A melhor imagem deixada por Garrincha foi a beleza de seus dribles, na visão de Argeu Affonso. Para ele, o craque tinha uma anomalia que o facilitava - as pernas tortas para o lado esquerdo - e conseguia, dessa forma, ser imprevisível.
- Os dribladores querem driblar em direção ao gol. O Garrincha driblava, ía, voltava, rodava, dava pirueta. Ele foi o Charles Chaplin do futebol – afirma.
Garrincha tinha nas pernas a imprevisibilidade
(Foto: Acervo/Ribamar Cavalvante)
Tetracampeão mundial em 1994 e atual coordenador técnico da seleção brasileira, Carlos Alberto Parreira diz que Garrincha foi um dos maiores artistas da história do futebol mundial.
- (O alcoolismo) talvez tenha até apagado um pouco o brilhantismo de toda a sua carreira, mas, sem dúvida alguma, quem acompanha futebol, sabe que livros e até filmes sobre o Garrincha já foram feitos. É exatamente pela magia que ele transmitia ao futebol - afirma
Para Claudio Carsughi, a imagem de um homem triste e amargurado não é a única que fica de Garrincha.
- Um homem que no momento em que poderia gozar a vida, não teve conhecimento do que representava. A imagem que no fundo fica é a imagem romântica na qual se admite as falhas humanas como pertencentes à condição do homem. Vai ter a imagem de um homem, que teve o dom de saber jogar excepcionalmente bem esse jogo "futebol" e o fez da forma que melhor encontrou. Eram as grandes diversões da vida dele, o futebol e os passarinhos – diz.