Sem o brilho das estrelas na Taça Rio, o Campeonato Carioca tem na briga pela artilharia um nome pouco conhecido do público. Charles Chad, de 31 anos, disputa a competição pela quinta vez, mas jamais atravessou uma fase tão positiva. Os oito gols em nove partidas disputadas o colocaram na cola de Hernane, do Flamengo, que tem nove e estacionou. A possibilidade de abocanhar a honraria, no entanto, vem acompanhada de um sonho maior: finalmente ter a chance de assinar um contrato com um clube grande e mudar de vida.
Morador de Campo Grande, o camisa 9 do Duque de Caxias fez questão de parar seu carro num posto de gasolina do bairro Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio, para falar com calma com a reportagem do GLOBOESPORTE.COM. Ele voltava de Xerém, onde fica o Marrentão, estádio e CT de seu time, que homenageia Romário, sete vezes no topo dos goleadores.
Charles Chad em ação no treino do Duque: 1,86m de altura ajudaram nos gols (Foto: Divulgação)
Chad é um andarilho da bola. Grandalhão desde a adolescência, sempre teve a vocação para balançar as redes. Tanto que saiu do Madureira direto para o Porto, de Portugal, aos 18 anos. Emprestado ao pequeno Vilanovense, não emplacou, o contrato acabou e o fez voltar ao país para defender o Botafogo-PB. Da experiência, pelo menos, lembra que conheceu e dividiu apartamento com Hulk e outros garotos, constantemente convocado para a Seleção.
Agora, com sinceridade, credita o momento a maior dedicação ao futebol que passou a ter.
- O que mudou foi que eu me preparei bastante para essa temporada, estou adaptado ao clube e com mais experiência pela minha rodagem. Era a hora de trabalhar muito mesmo, porque não estou mais para brincadeira. Tenho que pensar no meu futuro e no da minha família. Tenho me dedicado e pensado mais profissionalmente. Uma coisa que eu não fazia antes era ficar finalizando depois do treino, era um dos primeiros a ir embora. Eu era muito ansioso, relaxado, mas mirei o foco e estou no caminho certo - admite o atacante que, entretanto, é pai de duas filhas e garante nunca se deixou levar pelas tentações extracampo.
O que mudou foi que eu me preparei bastante para essa temporada, estou adaptado ao clube e com mais experiência pela minha rodagem. Era a hora de trabalhar muito mesmo, porque não estou mais para brincadeira. Tenho que pensar no meu futuro e no da minha família"
Charles Chad, sobre os motivos da boa fase
- Sempre fui tranquilo, casei novo, com 18 anos, então não era isso, não. Mas no mundo do futebol tem que ter força maior, as coisas não caem do céu. Acho que demorei para aprender isso - revelou.
Além da rápida passagem pela Europa, que se repetiu no Trofense-POR, em 2009, Charles Chad coleciona histórias que o enchem de orgulho: foi artilheiro na Venezuela, aonde disputou a Libertadores pelo Mineiros e esteve na China antes do "boom" de acordos milionários e maior desenvolvimento, não deu certo e voltou logo. E não se arrepende das escolhas.
- Conheci muitos lugares, muita gente. Para o bem e para o mal. Ir para a China foi um pulo financeiro, apesar de não ter sido como esperava. Tive grande fase na Venezuela. Posso dizer que vi o Jardel treinar de perto quando ele era artilheiro no Porto. Também fiz um teste no Flamengo com Julio Cesar e Adriano, que ainda era lateral-esquerdo, ao meu lado no juvenil, além do Hulk, que virou um amigo. Cuidou de mim quando operei o púbis. Vivíamos num regime de Big Brother num cubículo em Portugal. Era difícil, mas valeu a pena - conta ele, que também vestiu a camisa do Ceará, do Campinense, entre outros cariocas.
Poucos goleadores azarões na história
Faltam duas rodadas para o fim do Carioca para Duque e Flamengo, eliminados por antecipação em meio a campanhas ruins. Chad evita provocar Hernane, mas quer unir a artilharia à fuga do rebaixamento, já que seu clube está em 14º no geral.
- É uma briga boa, vai da estrela de cada um. Diria que é uma briga de gigantes.
Atrás da dupla estão Bernardo, do Vasco, com sete gols, Gilcimar, do Boavista, Sérgio Junior, do Bangu, e Marcel, do Resende, com seis. Destes, só o último deve avançar às semifinais. Lodeiro e Seedorf, do Botafogo, têm cinco, mas estão garantidos num eventual final por ter sido campeões da Taça Guanabara e, de longe, ameaçam os concorrentes caso arranquem.
No ano passado, um atacante de time pequeno cravou seu nome na história. Com 12 gols, Somália dividiu o posto com Alecsandro, do Vasco. Antes, Marcelo, do Madureira, fez o mesmo com Dodô, do Botafogo, em 2007. O triunfo de um azarão isolado ocorreu em 2002, no famigerado Caixão, com Fábio, do Volta Redonda, e há 30 anos, com Luizinho Lemos, do América, em época áurea na qual o Diabo ainda disputava a Série A do Brasileirão.
- Jogar em um dos grandes do Rio ou de qualquer lugar do país é meu grande objetivo. As especulações são muitas, mas de concreto, nada. Tenho que ter cautela. Futebol é momento e quero resolver logo. Mesmo esses problemas financeiros dos clubes não assustam. Time grande é time grande. O resto a gente arruma, senão os que estão lá teriam ido embora - acredita Charles Chad.
O estilo trombador é a marca registrada. Embora o golaço sobre o Flamengo (veja o vídeo acima), no domingo passado, tenha sido digno de Fred, do Fluminense, seu espelho atual.
- Todos os meus gols foram de dentro da área até esse. Saí um pouco mais e ajudei. Tipo Fred, que é completo e parece que joga no PlayStation, de tanta tranquilidade e categoria.