Capitão do Sobradinho, o volante Túlio, de 36 anos, acostumou-se na carreira a vestir camisas de grandes clubes do país como Corinthians, Grêmio e Goiás. Mas nenhuma delas o marcou tanto quanto a do Botafogo. Foram cinco anos intensos no Alvinegro, o suficiente para transformar o jogador em torcedor do time da Estrela Solitária, adversário do Sobradinho nesta quarta-feira, pela primeira fase da Copa do Brasil.
- Tenho orgulho de dizer que sou botafoguense hoje e também me sinto até constrangido em jogar contra o Botafogo - admitiu Túlio.
Santista na infância por causa do pai, o jogador não esconde que "virou a casaca" após o período que passou no clube carioca.
- Eu torcia para o Santos. Inclusive, quando comecei a jogar futebol profissional pelo Goiás, meu maior sonho não era nem a seleção brasileira, mas jogar pelo Santos. Isso acabou quando vesti a camisa do Botafogo. A paixão que eu tive com o Botafogo foi muito forte.
Tão forte que, para Túlio, enfrentar o Alvinegro é como jogar contra a própria pátria.
- Acho que é como um jogador naturalizado que joga contra seu próprio país. É assim que me sinto quando estou jogando contra o Botafogo - contou Túlio, que já enfrentou o ex-time defendendo as camisas de Grêmio e Figueirense.
Capitão do Sobradinho, Túlio admite coração botafoguense (Foto: Fabrício Marques / GLOBOESPORTE.COM)
E foi jogando pelo Figueira contra o Botafogo que o volante viveu um dos momentos mais marcantes da carreira.
- Antes do jogo, a torcida do Botafogo começou a gritar meu nome, como fazia nos tempos que eu ainda jogava lá. Isso meu arrepiou muito. Me desestabilizou totalmente para aquele jogo. Acho que foi o pior jogo que eu fiz com a camisa do Figueirense - confessou.
Túlio, no entanto, garante que a situação não se repetirá mais.
- Já estou mais vacinado - brincou. - Claro que, a partir do momento que o juiz apita, eu me esforço ao máximo pela camisa do time que estou vestindo. No momento, será a do Sobradinho. Vou querer fazer gol, vou querer dar alegria para o torcedor do Sobradinho, mesmo sabendo que do outro lado tem um time que marcou minha carreira e que tenho o maior orgulho de ter jogado nele.
Coração alvinegro
Princesas e super-heróis são botafoguenses nos
contos para os filhos (Foto: Fabrício Marques)
Quando não está em campo pelo Sobradinho, Túlio continua acompanhando pela TV os jogos do Botafogo. Muitas vezes, como um típico torcedor, uniformizado e com bandeira do Alvinegro.
- Na última final, quando o Botafogo foi campeão em cima do Vasco, eu assisti com a minha família. Meu irmão é vascaíno doente, então eu fiz questão de ir com a camisa e a bandeira do Botafogo para comemorar o título (risos).
Paixão que o volante também fez questão de passar para os filhos, muitas vezes, usando estratégias pouco convencionais.
- Na época que estava no Botafogo, minha filha estava na fase de formação, com dois, três anos. Lá no Rio tem muitos flamenguistas e eu percebia que ele já estava tendo a influência de alguns amiguinhos na escola. Então eu comecei a contar histórias adaptadas para ela, como da Cinderela botafoguense contra a bruxa flamenguista (risos). Deu certo e hoje minha filha é botafoguense doente. Sabe cantar o hino, sabe tudo. Como a estratégia funcionou, eu continuei usando com o meu filho também. O homem-aranha do Botafogo contra os inimigos de outros times.
'Chororô'
Um dos episódios mais marcantes de Túlio com a camisa do Botafogo aconteceu na decisão da Taça Guanabara de 2008, perdida para o Flamengo. Após o jogo, atletas, comissão técnica e membros da diretoria do Botafogo se reuniram em uma coletiva para reclamar da arbitragem. Na entrevista, alguns jogadores se emocionaram, e o episódio ficou conhecido como "chororô".
Até hoje tenho a mesma opinião. Nós fomos prejudicados. E não foi só em uma final, não. Foram várias"
Túlio, sobre o episódio do "chororô"
- Até hoje tenho a mesma opinião. Nós fomos prejudicados. E não foi só em uma final, não. Foram várias. Ter ido com o presidente, com a comissão técnica, pode ter sido muito forte, mas a gente tinha que fazer alguma coisa. Algum tipo de manifestação. Acho que foi uma demonstração de todos de amor com a camisa do time - afirmou Túlio.
Depois daquela coletiva, as torcidas adversárias passaram a pegar no pé dos botafoguenses. Um dos mais emocionados na ocasião, Túlio não poderia ser esquecido.
- Sempre me provocam. Independentemente do time que eu esteja, é a primeira coisa que dizem quando querem me provocar. Aqui no Sobradinho já teve torcedor adversário falando desse chororô. Mas eu levo na esportiva. É válida a brincadeira entre as torcidas. Na época, só não gostei quando o Souza fez provocação. Acho que não é atitude de profissional. Depois joguei com ele no Corinthians e fizemos as pazes - lembrou o jogador.